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Tarja preta (Brasil, 2015) - O que a cachaça e a energia têm em comum?

— Mauro Mendonça Kato, ©PuntoLatino, Nyon, abril 2016

Como a maior parte dos brasileiros sabe, os medicamentos tarja preta são aqueles que são vendidos com maior restrição, devido aos seus efeitos potencialmente perigosos para a saúde humana e a sua maior propensão para a dependência.

Esse foi o título escolhido pelo diretor Márcio Farias para o seu curta-metragem sobre a pequena cidade de Itacuruba. Apesar de possuir apenas 4 mil habitantes, a cidade possui o maior percentual de pessoas que sofrem de depressão no país.

Quais são os motivos para tal endemia? O filme apresenta dois argumentos principais, de um lado o isolamento geográfico, de outro, o marasmo econômico. Contando com 24 minutos de duração, o filme apresenta algumas pistas sobre as origens dos problemas de Itacuruba.

A “Itacuruba velha” é mencionada por um dos entrevistados. De fato, a Itacuruba que existe atualmente foi fundada na década de 80, após a construção da usina hidroelétrica Luiz Gonzaga que inundou a cidade, obrigando os moradores a abandoná-la. [1]

A nova localização de Itacuruba piora a situação, longe da estrada e do rio São Francisco, os seus moradores têm poucas oportunidades de desenvolver a agricultura e o comércio local. Em compensação a empresa Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) pagava um salário mínimo para cada morador, isso durante um período de 15 anos.

A cidade atualmente vive no ócio, sendo o álcool o principal meio de evasão. As autoridades estaduais e municipais, bem como a Chesf, parecem ter abandonado a cidade à sua própria sorte.

O filme, apresentado em preto e branco, bem como a sua fotografia, refletem bem a falta de vida na cidade. “Tarja preta” traz ao público um aspecto muitas vezes negligenciado, os problemas psicológicos das classes pobres. Muitas vezes tomamos por garantido que o stress e a depressão são sintomáticos da vida urbana (normalmente apresentado com imagens de executivos engravatados em frente à um computador), quando a realidade é muito mais complexa.

Ironicamente, a cidade de Itacuruba poderá receber a primeira usina nuclear do nordeste brasileiro [2]. Será que a construção e operação da usina trará finalmente o “progresso” para a população local?

 

[1] Torres, Fellipe (2014) Documentário investiga altas taxas de suicídio em Itacuruba, no Sertão de Pernambuco in Diário de Pernambuco [→ link].

[2] Itacuruba-PE- Usina nucelar que pode ser construída na cidade começa a gerar protestos depois do acontecido no Japão in Portal Jatobá [link]

 

 

 


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