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Karim Aïnouz: O que eu procuro fazer é olhar cada filme como uma nova aventura completamente distinta

— Entrevista com Karim Aïnouz Gabrielle Dupont © de Puntolatino —


O cineasta Karim Aïnouz foi convidado para a 14ª edição do festival Filmar en America Latina. Os seus 4 filmes: Madame Satã, O Céu de Suely, Viajo porque preciso volto porque te amo e O Abismo Prateado faziam parte da programação. O publico teve a sorte de assistir aos filmes em presença do diretor de talento.

O seu ultimo filme O Abismo Prateado foi inspirado na linda musica do Chico Buarque Olhos nos Olhos. Nesse filme, seguimos durante uma noite uma mulher que acaba de ser abandonada pelo seu marido. Passo a passo, acompanhamos Violeta nessa experiência. Como o próprio diretor diz tão bem “o filme tem alguma coisa de raio x de coração” .




O seu primeiro filme « Madame Satã » retrata a vida do João Francisco Dos Santos, malandro negro e homosexual que vivia na Lapa nos anos 1930. Eu queria saber o que te levou a te interessar a esse personagem ?

Acho que foram duas coisas que me interessaram bastante, a primeira é uma coisa dele, muito particular do personagem que é uma capacidade de nunca desistir, de estar sempre brigando com a vida, pra poder estar vivo, pra poder ser feliz, pra poder continuar. Foi como se passasse a vida fazendo uma corrida de obstáculos e mesmo assim tinha algo de muito bonito na maneiro como ele resistia. E a segunda coisa foi a raiva, ele tinha uma raiva que eu sinto falta no Brasil. Não é ira, é raiva mesmo, raiva contra um determinado estado de coisa. Uma raiva produtiva que eu sentia falta e essa coisa dele de se colocar de uma maneira muito clara, muito transparente, com muita força. Isso são as duas coisas que me fascinaram mais. E também naquele momento da cinematografia brasileira eu sentia falta de um filme que tivesse um protagonista negro, eu achava que era importante e relevante.



Você poderia descrever “Madame Satã” em três palavras?

Eu acho que tem alguma coisa da alegria, da teimosia e da explosão.




Os seus filmes são muito diferentes um do outro, e ate os filmes em si são difíceis de classificar em um gênero específico, você procura fazer isso?

O que eu procuro fazer é primeiro não ficar preso à idéia de coerência da obra e tal. O que eu procuro fazer é olhar a cada filme como uma nova aventura completamente distinta, procuro me entregar um pouco ao filme, à historia, ao personagem e tentar vir a serviço disso e não tentar impor uma forma pra isso. Então acho que por conta disso os filmes vão ficando muito distintos. Acho que cada filme tem a sua cara, tem seu jeito, tem seu perfume, tem sua textura. Mas geralmente todos os meus filmes são retratos mas do que historias, não é ? Então acho que entram nessa categoria de retrato. Eu me interesso muito pelo gênero retrato. Então mais do que tentar imprimir uma marca minha, na maneiro como eu olho para esse personagem acho que tem que vir com ele. Tinha uma coisa muito clara no Madame Satã que era a questão da explosão e do contraste do personagem. E ai o filme, pra ser preciso conceitualmente, ele tinha que ser um filme contrastado, que fosse sobre o corpo do personagem mais do que sobre um espaço. Isso em função de um desejo de traduzir o que era esse personagem. No Céu de Suely acho que tem uma coisa que é bem distinta disso, é um filme mais delicado, os cortes são mais delicados, a questão da paisagem é muito importante ... Então por conta disso acho que cada filme pede um outro olhar, ou não sei se é um outro olhar, o olhar é o mesmo, mas cada filme tem um corpo, eu acho que é isso.




Como você disse, o gênero retrato te interessa muito, achamos em todos seus filmes o fato de seguir de muito perto um personagem, a sua intimidade, e isso é ainda mais forte em O Abismo prateado. E impressionante como é fácil se identificar à personagem. O que te interessa em seguir de tão perto uma pessoa ?

Pois é, eu não sei, eu acho que isso nunca foi uma decisão deliberada em nenhum dos filmes mas eu fui me dando conta intuitivamente que era isso que me interessava, que era isso que me animava. Estou muito interessado no cinema enquanto experiência de “partager l’intimité entre les gens” , não sei como a gente traduz isso de maneira mais precisa. Eu tinha alguma coisa com Madame Satã, que é a questão da humanidade, tinha uma coisa quando eu fiz o filme e eu acho que isso foi vindo nos outros também, eu queria um pouco que as pessoas saíssem da sala de cinema com a sensação que elas tinham estado com aquela pessoa, que elas tinham sentido o cheiro daquela pessoa. Que houvesse, mais ainda do que o mecanismo de identificação, o mecanismo de compartilhamento da experiência. Eu acho que isso era uma questão fundamental pra mim. Outra questão era de tentar fazer um cinema que fosse um cinema mais físico, onde a gente tivesse realmente uma sensação física de ter estado ali com o outro, não só de testemunhar mas de compartilhar a experiência do outro. Acho que isso foi duas coisas que me encantaram muito no cinema mais do que a questão da historia. Inclusive acho que certos filmes tem problemas de historias, as vezes as historias são quase fiapos, então tenho vontade de ter historias que tem um pouco mais de corpo. Bom ... eu adoro gente, é a coisa mais gostosa que tem no mundo pra mim é estar em volta de gente, conhecer o outro, eu tenho realmente uma paixão grande, uma curiosidade, um interesse genuíno sobre o outro. E eu acho que o cinema é o jeito que eu me debruço sobre isso, eu invento um outro ali que eu não conheço direito, que eu consigo criar e tal. Então eu acho que tem essa relação com outro e esse fascínio pelo outro, pela experiência humana. Isso é o que mais me moveu quando eu estou fazendo cinema, mais do que qualquer outra coisa. E dai a questão do personagem, quando você entra verticalmente num personagem você de fato pode compartilhar da experiência dele.




Depois da projeção do «Abismo prateado», você disse que o filme tinha sido feito muito rápido e que tinha coisas que você gostava no filme e outras que você gostava menos, você pode dizer quais são elas ?

Esse filme foi um filme muito curioso pra mim, eu aprendi muitas coisas com ele. O filme tem alguma coisa de um borrão, de um “esquisse”, mas acho que tem um outro lado do cinema é que ele é uma forma de expressão que precisa de tempo. Então olho o filme assim e penso “porque que eu não cortei esse plano antes” e eu raramente tenho isso com os filmes. Sempre você fica pensando “eu poderia ter feito aquilo mais do que isso” e tal, mas com o Abismo prateado isso é mais forte. O filme não dormiu comigo, ele ficou acordado o tempo inteiro. Tem uma coisa que eu acho que fizemos muito rápido que é o roteiro, então acho que ele sofre de uma certa anemia narrativa sabe ? Que talvez seja o que é bacana do filme porque ele não fica ali tentando contar nada, ele é um pouco “estamos aqui vamos là”, “o que é que eu sinto depois que eu passei por isso” ...




E corresponde ao que ela esta vivendo no filme ...

E completamente. Mas por exemplo eu não sei se a personagem tinha que ter encontrado ninguém. Eu acho que o filme podia ter uma radicalidade ... Mas enfim, talvez nada de que eu estou te dizendo tenha nenhuma relevância e que o filme seja muito melhor do que tudo que eu estou te falando. Mas são questões que ficaram comigo talvez porque o filme foi embora muito rápido.




Se eu entendi bem você talvez não teria feito o personagem encontrar alguém ?

Acho que não, acho que aquilo é lindo mas sei la ... eu acho que eu queria ficar mais próximo do coração dela, o filme tem alguma coisa de “raio x de coração”. Eu acho que funciona mas acho que é um pouco surpreendente.




Em O Abismo prateado é a primeira vez que você contrata uma atriz tão famosa quanto a Alessandra Negrini. Você imediatamente pensou nela para esse papel ?

Desde o começo eu pensei na Alessandra. Tinha uma coisa nela que me interessava muito. Esse filme vem também de um lugar que me interessa muito. O universo do Chico Buarque, quando ele fala de amor, é um universo super classe media. E eu sempre tive um pouco de preconceito com a coisa da classe media, ela é tão onipresente na televisão então eu sempre fui reticente à esse universo. E ao mesmo tempo também me interessava fazer um filme onde você teria um personagem que fosse comum, que não fosse um personagem de exceção. E uma mulher, acabou de alugar aquele apartamento, é casada, tem um filho, de profissão liberal ... então me interessava muito olhar esse lugar. E tem uma coisa na Alessandra que sempre me encantou muito que era o fato dela ter uma personalidade, ela tem algo que é só dela e de mais ninguém mas tem algo bastante comum nela que era muito importante para esse papel. Não da pra sair fazendo esse filme com a Anna Magnani. Era importante que nesse filme o personagem fosse um pouco apagado as vezes. E o corpo, era importante que fosse um corpo comum. Tudo nesse mesmo conceito de falar de um determinado lugar, que é o lugar da classe media, de pessoas que tem trinta e cinco anos enfim. E ai quando eu pensei em tudo isso pensei que era a melhor pessoa.




Em uma entrevista você disse que ha muitos anos o Todd Haynes tinha falado pra você que “um filme sempre parte de um único conceito” e que essa frase tinha te impactado muito. Depois de ter realizado cinco filmes, o que você acha dessa frase ?

Eu fiquei muito impressionado quando ele falou isso. Eu acho que tem uma coisa bacana nessa frase, tem um rigor nisso e uma simplicidade. Então por exemplo quando você me pergunta o que foi fazer Madame Satã, eu vou te falar que eu passei uns seis anos que eu não sabia direito o que que era quando eu estava escrevendo o roteiro. Era tanta coisa, tanto assunto e o tempo foi passando e eu olhando aquele roteiro e parecia uma feijoada, tinha todo tipo de carne. Eu acho que uma coisa que o Todd me ensinou foi a questão da clareza. Não da pra fazer um filme sobre a vida inteira de um cara como Madame Satã, não da pra fazer um filme que conte tudo. As vezes o conceito não é tão claro e tudo bem, mas eu acho que tem que haver algo que seja pelo menos uma visão . Por exemplo no Céu de Suely, tinha uma coisa na época desse filme, não lembro quem foi mas alguém me deu uma foto da Samanta Morton com uma mala. E eu queria fazer um filme imaginando para onde que essa mulher vai, de onde é que essa mulher veio, quem é essa mulher. Isso não é preciso conceitualmente mas é sim um ponto de partida, e eu vou estar sempre me referindo a ele. Hoje em dia prefiro pensar como musica, qual é o tom do filme ? Azul marinho ? Pedra e fogo de artifício ? Sei la ... é isso que fica, quando você sabe o tom você tem o filme, quando você não sabe o tom vira um filme neutro, um filme sem cara, um filme sem jeito. Então acho que hoje em dia o conceito é um elemento muito importante mas a questão do tom talvez seja mais ainda.




Quando você reponde as perguntas do publico ou de um jornalista, você percebe a visão, a interpretação que essas pessoas tem do seu filme, que assim deixa um pouco de ser seu ... o que você sente em relação a isso ?

Seria tão bom se não precisasse falar dos filmes, que eles existissem por si mas isso não existe, isso é uma ficção. Eu acho que os filmes precisam ser comunicados, dai eu prefiro comunicar o filme do que deixar tudo solto, pelo menos eu sinto que eu tenho um pouco mais de controle. Mas finalmente não interessa, o que interessa de fato é como o filme fala com você, se você acha que consegui dizer o que você quer falar, isso é o que esta em jogo. O resto é uma maluquice, as pessoas acham qualquer coisa, e a outra acha o não qualquer coisa. Por isso que nunca vejo filme com publico, não tem a menor possibilidade de ver o filme com publico. Pra mim é a coisa mais violenta que eu poderia fazer pra mim e pro pobre do filme porque assim, temos uma relação muito intima, eu e a historia, eu e os personagens ... e igual você transar e ouvir o seu melhor amigo transando no quarto ao lado, é horrível, é constrangedor ficar ouvindo aquilo, ninguém precisa passar por isso. E ver um filme com o publico pra mim é um pouco isso, você faz uma cena que é pra pessoa ficar triste e ai as pessoas riem ... mas tudo bem porque o filme não é mais meu, é do mundo mas um dia ele foi meu então eu prefiro lembrar dele quando foi meu. E muito afetivo a relação que eu tenho com os filmes. Mas eu acho muito interessante fazer um cinema que seja mais aberto no sentido da construção do significado. E bonito quando um filme possibilita a multiplicidade de interpretação.




O clássico do cinema brasileiro que tem que ser visto segundo você ?

Um eu não sei, eu teria uns três. Tem um filme que se chama Vidas Secas que eu adoro, tem um outro que eu amo que é A hora da estrela, que é um filme da Suzana Amaral que me fez olhar pro cinema brasileiro de uma outra maneira. E tem um filme que eu amo de paixão e ninguém fala dele que é A dama da lotação, que é uma pornochanchada com a Sonia Braga que eu acho maravilhoso, que é bem louco. E tem um outro filme que eu amo que é Iracema uma transa Amazônica do Jorge Bodansky.




Você poderia falar um pouco sobre o seu novo projeto Praia do futuro ?

Esse projeto é um filme sobre três personagens masculinos e sobre a relação que existe entre eles. E um filme que fala muito dessa questão do embora, de virar outra pessoa. Cada personagem é um pouco inspirada num super herói. O filme é principalmente sobre masculinidade e vulnerabilidade, como você pode de fato exercitar sua masculinidade sem necessariamente abdicar de uma certa vulnerabilidade. E uma coisa de super herói mas de super herói tirando a mascara.


Ginebra 02.12.12., Gabrielle Dupont de © PuntoLatino


Filmografia
Madame Satã (2002)
O Céu de Suely (2006)
Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009)
O Abismo Prateado (2011)




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